Alcatéia

Toca das Lobas, as mulheres que correm com os Lobos. Grupo de mulheres unidas pelo desejo de liberdade e de colocar em prática seu potencial criativo. O núcleo das Lobas é pernambucano, mas já há frutos em outro grupo na Amazônia. Escreva para nós: laslobas@globo.com.
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12.5.04

Um livro + um insight

ou

A paixão segundo G.H. +
A sedução segundo Eva


Por que a idéia de que podemos ser sós é tão difícil de admitir?
Por que chega a doer entender a integridade?
Por que nos sentimos inseguras até fisicamente e nos impomos uma terceira perna
(ou várias)?

Uma série de instituições parece que vivem alimentadas pela insegurança do ser.
Pela necessidade aprendida do colo, da mão dada, da caminhada nas costas do outro...
A mãe precisa que o filho precise dela.
A professora, que o aluno lhe pergunte sobre tudo.
A amiga, que a amiga chore suas dores e lhe peça conselhos.
A amante, que o amado sofra de saudades.

Nos ensinaram um mundo cheio de limites, regras, medos, possibilidades...
um mundo imutável e ingrato com quem tenta mudar-lhe a direção...
um mundo que nos oferece um lugar que devemos ocupar, as máscaras certas para tal, as pessoas que nos cabem conhecer...
tudo encaixadinho.

Inclusive você.
Encaixadinha.
Como Helena encaixotada.
Sem braços, sem pernas... Linda!
Sem mobilidade, sem escolhas próprias, sem você no foco da vida.
Sob o comando de quem a ama.
Ama?

Já que a sociedade não nos deixa muitas opções,
para (com)(sobre)viver com/a elas,
criamos armadilhas para não vermos as conseqüências desse estreitamento,
criamos uma organização conformativa.
O problema é que o encontro com o eu verdadeiro,
rasgada a máscara,
pode se dar a qualquer momento.
Diante do choque
desse encontro profundo, G.H.* sofre:

"Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser -- se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele."*

Diante do choque
do vislumbre do ser,
do vislumbre de ser,
muitas são as fugas possíveis.
Um sem-fim de
trabalho,
sexo,
drogas,
programas de arte, cultura, teoria...
Um sem-fim de dispersões...
Um sem-fim de espelhos outros
forjados para escaparmos da própria imagem.

Ou um relacionamento
com alguém julgado melhor, maior, mais mais mais!!!,
com alguém
que segure sua mão,
que torne suas dúvidas tão menores que não valham mais a pena,
que lhe mostre o caminho.
Caminho do outro.
Caminhos de outrem.

Terceiras pernas.
Membros imaginários,
sem os quais teríamos muito mais mobilidade,
sem os quais seríamos livres.
Ser livre dá um medo!!!...

A liberdade é o caminho d'O Louco,
onde começa todo o ciclo dos Arcanos Maiores.
Atirar-se no precipício sem saber
se é alto ou baixo para cair,
se há pedras ou montes de feno a nos amparar,
se o solo é árido ou fértil para plantar...
A sensação de que a ida por aquele caminho desconhecido é necessária
nos impulsiona.

"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar."*

Creio que a espécie de terceira perna mais comum é o amor romântico.
No meu caso, uma busca incessante.
O coração sempre ocupado por alguém que não eu.
Alguém que me queria bem ou não.
Alguém que merecia ou não.
Mas sempre
alguém interessante, inteligente, bem-humorado, falante...
invariavelmente uma estrela.
Sendo ou não, eu o acharia lindo.
Qualquer um que
passasse pelo meu caminho
e
se encaixasse minimamente nessa descrição,
o que não é a coisa mais rara do mundo,
faria meu coração disparar
e
minha mente iniciar um processo de sedução intelectual
acompanhada pelo corpo.

Quando me vi vivendo o primeiro amor platônico,
percebi esse mecanismo:
o jogo de sedução que começava a montar.
Mas não poderia haver paixão sem tesão!
Isso é óbvio! Foi o que você pensou? Mas, não. Não é tão óbvio assim!

Paramos a tempo.
Viramos amigos.
Não sem sofrimento.
Não sem perguntas do tipo:
se ele é tão maravilhoso e nos damos tão bem,
porque não podemos viver um grande amor?

Meio ano depois,
a mesma situação:
um cara criativo,
inteligente,
sensível,
lindo,
solteiro (ô! raridade!),
tudo na vida,
aparece na minha vidinha
e
lá está o tabuleiro do jogo de sedução intelectual todo arrumadinho!!!
Mas, por que?
Se não há tesão?

Aí, veio o insight!
Como um tapa!!!
O ego é quem seleciona os amores!
Meu ego!
Por diversas razões:
1) A sedução é um teste de poder.
2) A fim de produzir um espelho através do qual quero ser vista.
3) Ter um namorado maravilhoso agrega valor à minha imagem diante da sociedade. São pontos pro meu currículo.
4) Passo a ter direito de controlar o tempo-espaço do outro à medida em que ele é meu alguma-coisa.
5) Posso acompanhar o processo criativo do outro com muito maior proximidade, direito de voz e voto.

Escolhas racionais que entram em xeque quando adoradores de Pã surgem diante de mim e o tesão é irrefreável, o olhar é de fogo e o corpo intumesce.
Não me entrego para não me perder...
e
para não me encontrar
diante do novo.

"Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia -- a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la --, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? Estarei mais livre?"*

* trechos do livro A paixão segundo G.H, de Clarice Lispector. Na Metamorfose (Kafka) segundo Clarice, a mulher não precisa se tornar uma barata para entender o que há de natural, de selvagem, de aterradoramente instintivo na vida que deve ser vivida, em contraposição à repressão, à competitividade, ao consumismo da vida civilizada.
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