A contação de histórias,
Um tema recorrente.
Uma amiga me enviou pequeno texto de
Eduardo Galeano0 do Livro dos Abraços.
Holanda é seu nome.
Nome que já sugere histórias de outros lugares...
O texto é:
A Paixão de Dizer/1
Marcela esteve nas neves do Norte. Em Oslo, uma noite, conheceu a uma mulher que canta e conta. Entre canção e canção, essa mulher conta boas histórias, e as conta olhando papeizinhos, como quem lê a sorte de soslaio.
Essa mulher de Oslo veste uma saia imensa, toda cheia de bolsinhos. Dos bolsinhos vai tirando papeizinhos, um por um, e em cada papelzinho há uma boa história para contar, uma história de fundação e fundamento, e em cada história há gente que quer voltar a viver por arte de bruxaria. E assim ela vai ressuscitando aos esquecidos e aos mortos; e das profundidades dessa saia vão brotando os andares e os amares do bicho humano, que vivendo, que dizendo vai.
Holanda disse que lembrou muito de mim quando o leu.
Sempre com uma história mais interessante que o real na ponta da língua.
- Tirou foto da fantasia de Íris no Carnaval?
- Eu não! A foto pode desmentir minha fala...
Mas meu contar de minhas histórias é como o falar de velhos, tal como Quintana o vê:
repleto de parênteses!!!
Pra que contar histórias?
Principalmente as minhas...?
Pra enfeitar o real.
Pra me perpetuar na memória.
Pra me ouvir por outras bocas.
É uma delícia quando amigos tomam a dianteira e dizem:
- Lembra daquela vez em Maragogi? Você estava menstruada e precisava de um O.B. grande. Eury tirou onda com o tamanho e você o desconcertou dizendo: ¿Menino, isso não é uma questão de bitola. É uma questão de fluxo!!!¿
Foi uma piada para estudantes de Engenharia dita há uns 15 anos e os ¿meninos¿ ainda a repetem...
Isso é puro prazer para mim!
***
Permitam-me contar-lhes uma história sobre contação de histórias...
Era uma vez, uma contadora que não sabia que era contadora... sabia muito menos o que era isso de alguém ser contadora de histórias.
Essa contadora tampouco era jornalista, apesar de ter o diploma largado em qualquer lugar por onde passou.
Nem era professora, porque, para isso, regras e padrões incompreensíveis pela contadora eram empregados.
A fala dessa contadora era aguardada em mesas de bar, procurada por telefonemas amigos, sedutora em camas de amantes...
Mas ela se pelava de medo de um microfone!!!
Até que um dia recebeu um e-mail chamando prum encontro de contadores.
- Será que eu sou isso? - ela se perguntou?
E mesmo sem obter respostas a contento, ela se inscreveu no negócio, pois era mais curiosa do que Pandora e Emília juntas.
Chegando lá, como o cisne que se vê pela primeira vez entre os seus, ela percebeu / encontrou / sentiu que era um deles. E contou e ouviu histórias durante um fim de semana inteiro...
Saiu dali feliz da vida, tendo descoberto mais um pedacinho de si que estivera à sombra.
Mas,
Pra que serve esse negócio?
Ela se pergunta ainda...
Mas,
Algumas respostas já conseguiu...
:
Hilda Hilst morreu e sua amiga querida Rosana, a maior fã de Hilda que conhecia, lhe encomendou a leitura de um texto da fantástica poeta e prosadora.
A contadora tinha lido muito pouco daquela obra. Na verdade, ela só conhecia bem mesmo o safadinho Caderno Rosa de Lory Lamb, livro que lia para rodas de colegas nos corredores do Centro de Artes, dez anos atrás...
Ela pensou, pesquisou, até que encontrou uma poesia que era a sua cara. E também a de Hilda. Um texto cuja perversão é muitíssimo delicada, sutilíssima. Semelhante à doce piada do elefante e da formiguinha:
- Obrigada, nada! Pode ir baixando as calcinhas!!!
Ela havia encontrado Filó, a Fadinha lésbica. Eis o poema:
FILÓ, A FADINHA LÉSBICA
Ela era gorda e miúda.
Tinha pezinhos redondos.
A cona era peluda
Igual à mão de um mono.
Alegrinha e vivaz
Feito andorinha
Às tardes vestia-se
Como um rapaz
Para enganar mocinhas.
Chamavam-lhe "Filó, a lésbica fadinha".
Em tudo que tocava
Deixava sua marca registrada:
Uma estrelinha cor de maravilha
Fúcsia, bordô
Ninguém sabia o nome daquela cô.
Metia o dedo
Em todas as xerecas: loiras, pretas
Dizia-se até...
Que escarafunchava bonecas.
Bulia, beliscava
Como quem sabia
O que um dedo faz
Desde que nascia.
Mas à noite... quando dormia...
Peidava, rugia... e...
Nascia-lhe um bastão grosso
De início igual a um caroço
Depois...
Ia estufando, crescendo
E virava um troço
Lilás
Fúcsia
Bordô
Ninguém sabia a cô do troço
Da Fadinha Filô.
Faziam fila na Vila.
Falada "Vila do Troço".
Famosa nas Oropa
Oiapoc ao Chuí
Todo mundo tomava
Um bastão no oiti.
Era um gozo gozoso
Trevoso, gostoso
Um arrepião nos meio!
Mocinhas, marmanjões
Ressecadas velhinhas
Todo mundo gemia e chorava
De pura alegria
Na Vila do Troço.
Até que um belo dia...
Um cara troncudão
Com focinho de tira
De beiço bordô, fúcsia ou maravilha
(ninguém sabia o nome daquela cô)
Seqüestrou Fadinha
E foi morar na Ilha.
Nem barco, nem ponte
O troncudão nadando feito rinoceronte
Carregava Fadinha.
De pernas abertas
Nas costas do gigante
Pela primeira vez
Na sua vidinha
Filó estrebuchava
Revirando os óinho
Enquanto veloz veloz
O troncudão nadava.
A Vila do Troço
Ficou triste, vazia
Sorumbática, tétrica
Pois nunca mais se viu
Filó, a Fadinha lésbica
Que à noite virava fera
E peidava e rugia
E nascia-lhe um troço
Fúcsia
Lilás
Maravilha
Bordô
Até hoje ninguém conhece
O nome daquela cô.
E nunca mais se viu
Alguém-Fantasia
Que deixava uma estrela
Em tudo que tocava
E um rombo na bunda
De quem se apaixonava.
Moral da estória, em relação à Fadinha:
Quando menos se espera, tudo reverbera.
Moral da estória, em relação ao morador
da Vila do Troço:
Não acredite em Fadinhas.
Muito menos com cacete.
Ou somem feito andorinhas
Ou te deixam cacoetes.
Juntar uma coisa com outra que sabe. Eis algo que aquela contadora sabe fazer!
Ela fez estrelinhas bordô, fúcsia, lilás, maravilha... nem ela mesma sabia o nome daquela cor...
Estrelinhas de origami e kirigami.
Colocou as lindinhas dentro de uma caixinha na mesma cor indizível.
Distribuiu em todas as mesas do bar Garagem, onde brindava-se à amiga.
Pediu licença à banda que iria se apresentar na seqüência e leu.
Com o microfone na mão.
Sem t(r)emer.
Uma vitória na vida daquela contadora que primeiro aprendeu o que era, para depois começar a entender pra que serve.
Uma missão maior pode ser que exista ainda, mas essa compreensão será outra história!...