Alcatéia

Toca das Lobas, as mulheres que correm com os Lobos. Grupo de mulheres unidas pelo desejo de liberdade e de colocar em prática seu potencial criativo. O núcleo das Lobas é pernambucano, mas já há frutos em outro grupo na Amazônia. Escreva para nós: laslobas@globo.com.
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2.2.04

Todas as crianças do mundo crescem,
menos Peter Pan.


Que filme lindo!

Peter Pan de P.J. Hogan.



Peter visto através da ótica mítica do deus Pan, deus dos bosques, da natureza selvagem que habita cada um de nós. Pan, a carta d¿O Diabo no Tarô Mitológico: o encontro com o que há de instintivo, sexual, amoral, cruel e divino. Quando essa carta sai num jogo, é hora de confrontarmos o medo, de livrarmo-nos das amarras da moralidade, de expandirmos a mente através do encontro com o que há de sombra na nossa psique, com o que há de vergonha nos nossos cotidianos vividos, pensados e guardados.

***

Uma vez, ouvi um flautista contar com sua música uma história linda: a história do amor do deus Pan pela ninfa Sirinx. Ele nos contou que Pan se apaixonou pela ninfa, mas não foi correspondido. Sendo assim, Sirinx vivia fugindo do deus metade homem metade bode. Até que se escondeu dele num lago e se afogou. No lugar da sua morte, nasceram hastes de junco que Pan cortou e transformou numa flauta.
Sirinx imortalizava-se.

Peter Pan toca sua flauta com nostalgia no filme de Hogan. Sem tristeza, porém. Afinal, ele só pode ter pensamentos felizes, pois só assim se pode voar.

¿Tenha pensamentos felizes!
Eles o elevarão!¿


Este é um ensinamento importante para todos nós. E que funciona, hein?

***

O menino que não quer crescer surge seminu, envolto em folhas, ramos lhe sobem peito acima.
Outro deus da desordem trazido à mente: Dioniso.
Outro conceito vem com ele: o hedonismo.
O cabelo moderno em high lights ajuda a despertar nosso desejo.

***

Wendy surge também sensualidade pura. Pureza de flor se abrindo, os lábios vermelhos como um morango no ponto de ser mordido carrega um beijo no canto da boca provocante demais.
Ela é a narradora do filme. Contadora e vivedora de histórias. Tal como eu, gosta muito de contar histórias que presenciou ou integrou, mas também histórias de aventuras e contos de fadas.
Ela diz:
- Vou ser escritora. Vou contar minhas aventuras numa trilogia.
Ao que a tia Milicent retruca:
- Que aventuras?
E ela, sem hesitar:
- As que ainda vou viver.

***

O Capitão Gancho aparece primeiro como belíssimo rasta. O peito nu é adornado pelo equipamento em couro e ferro no qual se acoplam tantos ganchos quantas são as funções de uma mão, mas também de uma arma. A mão decepada cruamente vista como cicatriz inconclusa.
Hogan joga com os símbolos atribuindo o papel do Sr. Darling, pai de Wendy, ao mesmo ator.

***

Sininho é uma fada que contradiz a idéia de fada-madrinha, fada boazinha, fadinha argh!... Ela teria nojo de ser tratada assim. Ela é, como Pan, as deusas e ninfas gregas, uma trickster, uma pregadora de peças.
A Sininho de Hogan é a cara de Cindy Lauper! Ela é linda e fashion. Ela é boa e má, amorosa e ciumenta, salvadora e assassina.
Nunca devemos dizer que não existem fadas, pois a cada vez que isso é dito, uma fada morre.
Sininho salva Peter Pan tomando em seu lugar o veneno preparado a partir do líquido vermelho dos olhos raivosos de Gancho, um líquido feito de ciúme, malícia e decepção. Sininho morre, sua luz dourada se apaga. Pan não se conforma, chora e diz sem parar:

¿Eu acredito em fadas!
Eu acredito em fadas!
Eu acredito em fadas!
...¿


Primeiro baixinho, choroso, depois mais alto e cheio de esperança.
Lá longe, no barco de Gancho, Wendy recebe a mensagem e também começa a dizer:

¿Eu acredito em fadas!¿

Os meninos perdidos que estavam por lá também começam a dizer, com tanta fé que logo os piratas também ajudam a corrente. Uma corrente de cura.
Acreditar é contagiante!

Creio que ¿Eu acredito em fadas!¿ tem o poder de reverter sua negativa e um monte de fadas voltaram à vida naquele momento. Sininho se ilumina novamente.
Acreditar é transformador!

***



O Capitão Gancho não cobiça Wendy.
Ele é avesso de Peter. É um homem triste.
Ele é espelho de Pan. É também só.
Conversando com Wendy, Gancho diz: ¿Peter não pode amar¿. Isto é parte da sua charada. Por quê? Porque os meninos perdidos são meninos abandonados pelos pais, perdidos nas ruas e que nunca mais encontram o caminho de casa. Como acreditar no amor, quando não se foi amado na infância?
Quando se foi rejeitado pela amada ninfa...
Os meninos perdidos, ao contrário de Wendy e seus irmãos, não conhecem o amor. Quando ela chega cheia de histórias para contar, histórias de amor, de aventuras, de finais felizes, conquista os meninos, aquecendo-lhes os corações. Assim, todos descobrem que é preciso voltar para casa e crescer.

Quando Wendy fala com Peter sobre isso, ele pergunta:
- Se eu voltar, vou ter que ir à escola, trabalhar num escritório, casar-me e ter filhos?
Ao que ela responde afirmativamente.
Ele não suporta essa idéia!

Sei bem o que isso significa.
Crescer é pesado.
Ter contas para pagar impede que voemos. Tem horas em que nem as amigas fadas enviando pós de fada em e-mails podem nos fazer voar. A realidade nos ata ao solo.

***

Wendy percebe que terá de abrir mão de sua história, do amor de seus pais e do percurso de sua própria vida para viver na Terra do Nunca. O esquecimento dos pais nas mentes de seus irmãos a assusta. Tal como na História sem fim (o livro de Michael Ende), quanto mais os personagens se embrenham no mundo de Fantasia, menos conseguem se lembrar da realidade do mundo dos adultos.
Ficar em Fantasia ou na Terra do Nunca é uma questão de desejo. Voltar para casa também.

***

Gancho discute a questão crescer-ou-não-crescer com Peter e lhe diz, como quem descobriu um grande segredo, que querer ser menino para sempre é a sua maior mentira.
Mentira ou não, reside em Peter uma nostalgia do que não foi vivido, da opção que ele não fez, traduzida na frase final:

¿Viver seria uma incrível aventura!¿

***

Poucos dias atrás lá estava eu diante de minhas palavras ecoando:

Eu não suporto a sua liberdade!

Depois de ver em Dogville o quanto se pode torturar alguém que amamos para mantê-la por perto e como se deve respeitar o modo de viver do outro em Peter Pan,
retratei-me.

Eu também já tinha ouvido isso...
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