Alcatéia

Toca das Lobas, as mulheres que correm com os Lobos. Grupo de mulheres unidas pelo desejo de liberdade e de colocar em prática seu potencial criativo. O núcleo das Lobas é pernambucano, mas já há frutos em outro grupo na Amazônia. Escreva para nós: laslobas@globo.com.
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29.1.04

De dentro pra fora ou de fora pra dentro,
o mundo-jardim
ou
a menina-borboleta


A internet é como nosso pensamento. Falo das mulheres em geral, das mulheres que conseguem pensar e fazer várias coisas ao mesmo tempo: dar banho no bebê, sem queimar o risoto, enquanto trama lá em algum lugar misterioso da mente a justificativa do projeto em que está envolvida. Terminado o banho e o almoço, brilha - Eureca! - a idéia inteira!

Trabalhar com vários programas abertos, navegar de link em link, tecer conexões entre textos, intertextos... É assim!

Entre um número e uma letra, a internet se abre e traz a fala da Loborboleta Amarela Mariana. Encantada com um texto enviado por um amigo, Mari compartilha o que sabe ser sábio, apesar de não ser um Quintana:

"Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquele cara que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente, não é o homem da sua vida.
Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!"

E me vêm à cabeça outros jardins...

O de minha casa, o jardim de minha mãe, onde mora minha flor preferida, não uma flor única e enredomada como A Rosa do Pequeno Príncipe, mas uma explosão de pequenos ramalhetes de jasmins branco-rosa-vinho. Flores que saem comigo aos montes delicadamente encaixados entre meus cabelos e que vão se soltando e ficando por onde bem entendem. Quando alguém apanha uma delas pelo chão e tenta me devolver, eu lhe dou. Acho que era ali que ela queria ficar.
Quando meus pais viajaram e me deixaram só aqui, cuidei do jardim e entendi o significado dele. Enquanto minhas flores brotavam e brotavam, as de minha mãe não se conformavam com o banho que eu lhes dava, nem com minha conversa... elas murcharam e não apareciam de jeito nenhum...
No dia seguinte à chegada deles, lá estavam elas sorrindo!...

Lembrei então de outro jardim... o de Rubem Alves. Ele, que faz nascerem flores em nossos corações e mentes, tem um lindo jardim na frente de casa e uma filha que trabalha criando jardins.
Rubem fala sobre o jardim como a criação divina. Deus criou um jardim para acabar com a escuridão, o silêncio e a confusão. Depois de pronto, ele se pôs a descansar, mas, principalmente, a contemplá-lo. E ainda está lá, a despeito dos que pensam que está no céu...
Será que Eva e Adão perturbavam o equilíbrio do Jardim?
Como esse Deus, Rubem passou tempos querendo, planejando e olhando um terreno ao lado de casa por cima de um muro, até consegui-lo para realizar seu sonho. E plantou um mundo seu nesse jardim. O seu mundo. Um reflexo de sua alma. Ele diz assim:
"Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma..."
Uma inspiração para o jardim de Rubem foi o de Evanira, da obra de Guimarães Rosa, jardim com uma menina que "brinca de se fazer Fada".

O jardim de Evanira me leva ao jardim de Evinha, a menina que fazia do jardim de casa, elevado a dois metros da rua, seu primeiro palco. Ela usava fantasias de saias e perucas e brincava de casinha ali. Era a maneira que ela encontrava para convidar as outras meninas da rua a virem brincar com ela, já que não poderia descer. A menina também fazia do seu jardim um mundo e hoje pensa e o mundo é seu jardim e a menina continua convidando todos a brincarem nele...

Inclusive Mari, a Loborboleta Amarela, que também ama o jardim de Cecília Meireles, como eu e Rubem:

"No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta."


Eis o equilíbrio instável, de delicadeza impensável por nossas mentes amarradas a linguagens e imagens institucionalizadas.
Transformar o mundo num jardim, no mundo sonhado é, para Rubem, "programa para uma política. Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro"!

***

Mas por que a Lobinha veio com essa história de jardins num blog de Lobas Selvagens? Porque, queridas Lobas, nossa inspiradora Clarissa fala do jardim como um exercício de aprendizagem sobre a natureza da vida-morte-vida. Ela ensina como lidar com um jardim de terra e plantas, como metáfora para a lida com a psique.
O trecho a seguir é parte da sétima tarefa da interpretação da história de Vasalisa:

[...] Às vezes, com o objetivo de aproximar uma mulher da natureza da vida-morte-vida, eu lhe peço que cuide de um jardim. Seja ele psíquico, seja ele de lama estrume, verdura, bem como de todas as coisas que cercam, ajudam e atacam. Que ele representa a psique selvagem. O jardim é um vínculo concreto com a vida e a morte. Seria mesmo possível dizer que existe uma religião dos jardins, pois eles nos ensinam profundas lições espirituais e psicológicas. Qualquer coisa que possa acontecer a um jardim pode acontecer à alma e à psique - excesso de água, falta de chuva, pragas, calor, tempestades, enchentes, invasões, milagres, ressecamento, reverdecimento, bênçãos, cura.
Durante a existência do jardim, a mulher escreve um diário, registrando os sinais de doação de vida e de retirada de vida. Cada registro ajuda a formar uma sopa psíquica. No jardim adquirimos prática para deixar que pensamentos, idéias, preferências, desejos e até mesmo amores vivam e morram. Plantamos, arrancamos, enterramos. Secamos sementes, fazemos a semeadura, protegemos as plantinhas.
O jardim é uma prática de meditação, a de dizer a hora de alguma coisa morrer. No jardim, podemos ver chegar a hora de desfrutar e a hora da regressão. No jardim, estamos nos movendo de acordo com a inspiração e a expiração da grande natureza selvagem, não contra ela.


***

Lindo! Não é?
Acho que vou começar uma plantação de brotos de feijão.
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O capítulo sem fim...

Passamos quase o ano todo de 2003 trabalhando a história de Vasalisa e as nove ricas tarefas enfrentadas por ela - por todas nós - em busca da intuição própria. Mas sempre haveremos de voltar a ela para lembrar e relembrar como soa a voz da bonequinha que cada uma de nós carrega nos bolsos dos aventais onde guardamos nossas ferramentas mais secretas para a lida conosco e com outrem.

Sincronicidade. Quando os olhos, todos os olhos, de todos os sentidos, se abrem para ver os acasos, as coincidências, os golpes de sorte como mensagens divinas, o mundo se transforma. Mas isso não é tão fácil, pois quando aprendemos a ver as conexões entre os fatos, por obra do nosso consciente ou do inconsciente, vamos começar a investigar os porquês.

Quando uma seqüência de acontecimentos te leva a um final absolutamente kafkiano, mas também absolutamente coerente, é desnorteante!

Vou contar uma história e quem souber me dizer o significado dela, que o faça...
pois ainda estou a matutar...



O beijo é...

De manhã cedo, saí de casa com dinheiro na carteira, celular em punho e disposição para a luta de um dia. Fui pagar a passagem de ônibus com 10 reais e 30 centavos, para os quais haveria um troco de 9. O cobrador não tinha troco. Desci pela frente.

Depois do almoço, entre um trampo e outro, a mesma coisa aconteceu, em uma linha de ônibus completamente diferente. Fiquei grilada, mas desci pela frente.

A tarde estava tão escaldante que não conseguimos trabalhar. Tudo adiado para a manhã seguinte. Meus pais viajando, comprei umas coisas pro café da manhã e rumei pra casa. Paguei o ônibus com outra nota de 10 e as benditas moedinhas.

Cheguei em casa, tomei um banho delicioso, pus flores do jardim no cabelo e saí para encontrar o amor.
Tudo lindo!
Tudo poético!
Desterritorializante o beijo é.
E como...

Tão desterritorializante, que não senti minha carteira sendo roubada.
Tão fora do Pátio de São Pedro, tão distante de tudo aquilo que não fui embora na hora certa, na hora em que percebi a energia diferente de outras Terças Negras, a ausência dos mais caros amigos e o recado de uma menina dizendo que o lugar estava estranho naquela noite...

E naquela noite, voltamos de carona num ônibus para casa...
Mais uma vez,
eu descia pela frente...

***

Ainda bem que uma vozinha havia me dito:
"Deixe o celular em casa. Você já vai encontrar quem precisa".

***

No dia seguinte, não pude ir trabalhar.
A raiva e a sensação de impotência me derrubavam.
A presença dele em minha casa me extasiava.
Sustei o talão de cheques errado.
Comemos as coisas do café da manhã e só pedimos uma pizza às 4 da tarde.
Transformamos a quarta em domingo!
Isso é estar apaixonado!

24 horas duram uma eternidade...
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Todo ano é assim?



Todo ano é assim: a gente se programa pra perder peso, mudar de emprego, encontrar um grande amor, escrever o projeto do doutorado...
E todo ano, um monte de projetos são adiados.
Procrastinação! Palavra difícil de ser dita, mas que sintetiza esse comportamento de sempre deixar pra depois as coisas mais importantes para o nosso prazer.

Quando lemos o capítulo do Barba Azul, do livro Mulheres que Correm... pudemos ver que somos as maiores predadoras dos nossos próprios sonhos. A despeito do que nossa intuição nos diz - simbolizado na história pela barba azul do cabra e pelos conselhos da irmãs mais velhas -, seguimos em direção à morte do que nos é mais caro: a nossa alma.
Para livrarmo-nos do mal que tantas vezes fazemos contra nós mesmas, temos de recuar e dar a volta. Quantas mulheres já ouvimos dizer agora não vai dar, seguido de mil motivos que não justificam a tortura da insistência em determinado modo de vida. Preparamos nossas fugas, porque nos preocupamos - muitas vezes - mais com os outros do que conosco. Sentimo-nos responsáveis e, por isso, arrumamos tudo para poder ir embora. Com muito charme e simpatia, mais com muita dor e tempo perdido para nossos próprios ideais.

Se for o jeito, fazer o quê?
A consciência não se pode estancar. É como a chave do Barba Azul que não pára de sangrar e inunda nossos vestidos. É como os segredos descobertos e as ameaças desveladas que se impregnam em nossas faces e não podemos disfarçar o quanto tudo aquilo causa dor.
Traçar metas, objetivos, planejar conscientemente a fuga de tudo o que nos oprime! Mesmo que nosso movimento não seja o de ir embora realmente, fisicamente, mas o de modificar a forma atual para uma melhor: flexibilizar horários de trabalho, reencontrar o amante no marido, olhar para os filhos e conseguir ser vista de outros jeitos...

Isso tudo sem esquecer que idéia é nuvem!
Escreva, anote, cronometre, invente rituais de passagem!
Mas, por você:
Não perca seu propósito de vista!
Não perca sua vida de vista!

***

Foi isso o que as Lobas tentaram fazer no nosso último encontro. No encontro do último domingo (17/01), fomos à casa da Loba Vermelha dos Milagres para planejar nossas vidas, tendo em vista aspectos outros além de simplesmente escrever nossos sonhos e objetivos num pedaço de papel. Presentes Bethania, Eva, Fabia, Gabi, Mariana, Mayra, Rosana e Sandra. Entre Lobas novas e antigas, comemos muitas saladas de frutas e verduras e queijo e passas fálicas de banana e figo.

Estamos estudando o capítulo de Manawee e seu cachorrinho. Neste encontro, nos concentramos no personagem do cão que tem de ajudar Manawee numa missão, mas vive se distraindo dos seus propósitos porque encontra coisas gostosas para desfrutar no meio do caminho.

Pensamos que, como o cachorrinho de Manawee, nossos planos também são adiados porque encontramos deliciosos ossos ainda cheios de carnes, tortas recendentes a noz-moscada... garrafas de cerveja, pernas, bundas e coxas gostosas, cursos e projetos que nada têm a ver com nossas metas, etc...

Fizemos então um plano anti-boicote para 2004.
A atividade (coordenada por Bethania Cunha) foi assim:
1) Cada uma se desenhou no momento atual, no ambiente em que vive
2) e derivou o mesmo desenho para se ver com os desejos/objetivos/sonhos realizados.
3) Listamos os objetivos,
4) os recursos que trazemos em nós para a sua realização,
5) os recursos materiais de que dispomos
6) e os outros recursos que os quais contamos.
7) Finalmente, nos dispusemos a encarar os ossos suculentos que podem nos desviar do caminho
8) e como podemos nos desviar/livrar deles.

No final da reflexão, cada uma tinha sua vida nas mãos.
Sabemos o que precisamos fazer.
Sabemos até o que nos impede de prosseguir.
Então, isso é abundância.
É hora de meter a mão na massa!

***

Xô, ossos suculentos e tortas com noz-moscada!

Contra
a tentação, resistir.
a paixão, se entregar.
a timidez, se olhar.
a farra, o controle.
o pessimismo, acreditar.
a repetição, perceber.
a frustração, superar.
a dispersão, meditar.
a preguiça, disposição.
a pobreza, abundância.
o auto-boicote, a auto-disciplina, a auto-suficiência, o amor a si mesma.
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