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13.11.03
De ossos e almas
Histórias exemplares, textos de amigos e outros atores podem nos ajudar a encontrar ossos perdidos ao longo da nossa educação e formação na família e em outras tantas instituições.
Ao ler a história do Menino Minotauro, de Felipe Botelho, encontrei com Mulher Selvagem e com a Mulher-esqueleto. Um Minotauro e uma esqueleta muito chique, auto-confiante e plena de amor-próprio aparecem na vida do menino Guga. Esta se intitula de "senhorita Ossada do Corpo de Maria das Neves da Silva".
O livro de Botelho conta a história de Guga, um menino que - como quase todos nós - foi reprimido, amedrontado e calado durante a infância. Seu melhor amigo era do tipo que chamam por aí de invisível. Mais que palpável, o Minotauro era o único que o compreendia e lhe dava forças para enfrentar os medos.
Sobre de onde vinha o Minotauro, o avô de Guga dizia:
- Do seu coração. Na verdade ele sempre esteve aí e só agora você o descobriu.
Tal qual o monstro, o avô também não falava com mais ninguém... Porém, sabia qual era a função de desse tipo de amigo:
- Dá força, coragem. Um minotauro é a natureza falando no corpo da gente. Quando uma pessoa descobre o seu Minotauro e aprende a conviver com ele, se ela quiser, poderá tornar real qualquer sonho que seja.
Mas o sábio avô adverte Guga. Ele não deveria falar do amigo para ninguém sob pena de ser taxado de louco...
Na escola, Guga enfrentava sérios embates com a professora que lhe impunha regras sem lógica, castigos implacáveis e mudez compulsória. Enfrentou caroços de milho sob os joelhos, palmatória e a escuridão de um quarto cheios de assustadores experimentos de Biologia.
Assustadores para quem não tem um amigo fiel e forte como o Minotauro. Os dois entraram, Guga um pouco assustado, mas logo se soltou, ao conhecer a adorável senhorita Ossada.
Quando Guga lhe pergunta o que "fazia na sua vida viva", ela responde:
- E quem disse que esta minha vida é morta? Ah, meu filhinho, vida viva é aquela que a gente vive, e eu nunca deixei de viver. Não importa o que se foi. O que passou, adeus, e o que não passou está aqui, comigo, agora, neste exato momento, diante de você. Por isso eu vou adorar se você quiser me ouvir falar do que sou hoje. Hoje sou uma 'esqueleta' muito da bem ajambrada, que sabe dar aulas de anatomia sem precisar sequer abrir a boca. É só deitar os olhos na maravilhosa aqui e aprender.
E continua:
- Na verdade só estou conhecendo o mundo agora. Quando minha dona vivia por aqui, eu não tinha como ver as coisas. Meu trabalho era por baixo da pele, escondido, com um monte de músculos em cima de mim. Só sabia do que se passava do lado de fora porque ouvia a fofoca das células e mais nada. Só depois que a Maria das Neves partiu, fiquei livre.
***
Podemos entender a Maria das Neves como o ego, o que impede nossa alma, nossa essência de se manifestar plenamente e que deforma as informações que lhe chegam aos sentidos. Os ossos, o que há de indestrutível no corpo, como símbolos da alma.
Clarissa Pinkola Estés diz a mesma coisa que Felipe Botelho, em outras palavras:
Os esqueletos na câmara [onde Barba Azul empilhava restos dos corpos de suas ex-mulheres vítimas] representam, sob a ótica mais positiva, a força indestrutível do feminino. Arquetipicamente, os ossos representam aquilo que não pode nunca ser destruído. A simbologia dos ossos nas histórias revela essencialmente que existe algo na psique que é difícil de destruir. Nosso único bem que é difícil de destruir é nossa alma.
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De volta ao lar
Uma vez abertos os olhos, os que levam informações ao cérebro, ao coração e à alma, começamos a estabelecer mil relações entre o que vemos, lemos, sentimos... Se uma senhora pequenina e velhinha passa por nós em vermelho e preto, dos pés em meias e sandálias ao cabelo preso por um lenço, às 7 da manhã, isto é um aviso! Um aviso para estarmos atentas à beleza de sermos mulheres e disso nos possibilitar o uso de saias de tantas cores quantas forem as do arco-íris, dos orixás, dos kins planetários...
Tudo o que atinge meus sentidos funciona como um tijolinho no caminho dourado que me levará junto com Dorothy de volta ao lar.
- Não há lugar como o nosso lar... Não há lugar como o nosso lar... Não há lugar como o nosso lar...
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10.11.03
1.
As borboletas são flores aladas, frágeis promessas ainda sem raiz.
Deixaram para trás a fase do casulo, o tempo em que eram lagartas e tinham fome e se alimentavam de outras flores. Mas o burburinho atrai, a luz cega, os cheiros inebriam, e é por isso que não sabem como estar no mundo. Tudo é mágico e atraente e meio perigoso, e às vezes elas dançam em torno de uma lâmpada, pensando que acharam um tesouro. Mesmo o que têm de melhor - suas asas amarelas - são frágeis e se machucam facilmente, deixando um rastro de ouro nos dedos dos atrevidos.
Um dia, aprendem. Descobrem o sol, descobrem a terra. Criam raízes e dão néctar e perfume, tornam-se auto-suficientes. Alimentam outras lagartas e borboletas. E deixam de ser metáfora.
2.
As flores são borboletas covardes. Que medo elas têm de voar!
É tão cômodo ter raízes... Estão tão acostumadas a dar beleza sem maior retribuição...
Mas no fundo, bem que invejam essas flores aladas que são livres para beijar outras flores, voar pelo mundo, palpitar de alegria. Sem peso e sem responsabilidade.
A maioria das flores fica só na vontade, mas uma ou outra se esforça e larga sua corola. Espicha as pétalas e cria antenas para ver o mundo. E se entrega à voragem da vida.
Mariana Mesquita
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3.11.03
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2.11.03
Astrologia
Minha estrela não é a de Belém:
A que, parada, aguarda o peregrino.
Sem importar-se com qualquer destino
A minha estrela vai seguindo além...
- Meu Deus, o que é que esse menino tem? -
Já suspeitavam desde eu pequenino.
O que eu tenho? É uma estrela em desatino...
E nos desentendemos muito bem!
E quando tudo parecia a esmo
E nesses descaminhos me perdia
Encontrei muitas vezes a mim mesmo...
Eu temo é uma traição do instinto
Que me liberte, por acaso, um dia
Deste velho e encantado Labirinto
Mario Quintana
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A Verdadeira Vontade como guia
Tentando encontrar meus próprios ossos perdidos, terminei achando um momento perdido na vida, um momento em que estava perdida, um momento em que questionava tudo à minha volta.
Num diário de 1992, lá estava eu, perdida, apesar de consciente do meu lugar no mundo naquele instante. Tudo insatisfatório. Tudo por fora diferente do que eu precisava por dentro. Tudo correndo tão rápido e certo que era difícil ver por onde ia. Até que decidi parar. E parei numa ante-sala do futuro. Eu escrevia assim:
"Estou numa ante-sala do futuro! Isso nunca aconteceu antes. Eu sempre soube o que fazer. Aliás, sempre fui levada por uma corrente de coincidências, sorte e aptidões por um caminho que me trouxe até aqui, mas agora, me agarrei a uma estaca que havia no meio da ante-sala do futuro nº 6 para não ser levada pela corrente: esse fluxo já não me atrai... Talvez tenha que enfrentar redemoinhos e até maremotos para poder abrir uma das portas que levam a uma das ante-salas do futuro nº 7. O presente é apenas o limite entre o passado e o futuro?!... ou será o que deve ser vivido. Não sei. Não sei de nada. Mas sinto o presente como uma ante-sala do futuro repleta de massa viscosa, infinita, insípida e inodora... Estou perdida em meio a essa coisa. E raramente consigo segurar algo nas mãos. Muito do que pego parece asqueroso. Pouca coisa é deliciosa. Espero que o presente passe logo! Devia haver coisas interessantíssimas nas 5x(n-1) portas que deixei de abrir!?"
"Eu já tinha ouvido falar em crise existencial na adolescência, mas havia passado sem ela. Hoje, prestes a enfrentar meu 21º aniversário, estou na crise da maioridade. É o seguinte:
Estou na ante-sala do futuro. E cheguei até aqui trazida pelo fluxo do destino. Não tive que tomar decisões, escolher opções nem lutar por nada... E, quando você segue o fluxo simplesmente, vai atravessando os vários compartimentos do destino sem perceber sua existência, sem notar que está atravessando portas e que, ao lado dessas portas, há uma dezena de outras à sua disposição, porém só uma está aberta e é muito mais fácil passar por esta...
Agora, ciente da existência das outras portas, recuso-me a seguir o fluxo. Tento ler o que está escrito nas tabuletas, mas não consigo... Não é ar a matéria que me cerca, é uma substância gosmenta, asquerosa e esbranquiçada que me impede de ver e sentir tudo com fidelidade de forma e textura... Aquela porta ainda está aberta... O fluxo corre pra ela... Resistirei. Resistirei?
Indecisão x Insegurança. Primas-irmãs. Sempre fui considerada muito segura, mas agora posso ver que a insegurança era tão grande que não dava margem para a indecisão, impedindo que as dúvidas viessem à tona. Essa repressão dava a impressão de segurança, uma máscara... O resultado é que a enxurrada de dúvidas represadas caiu duma vez e estou pirando com isso.
Foi muito fácil viver até agora, mas não posso continuar no fluxo do destino sem um questionamento profundo em todos os aspectos da minha vida.
Eu sei que posso ser e fazer tudo que eu quiser, mas primeiro tenho que saber o que quero!..."
Hoje sei que paralisei o presente, escondi-me do mundo, fiquei um ano enclausurada entre livros, filmes, cervejas e amigos. Ao invés de deixar a crise me tomar profundamente, de me deixar levar pela correnteza da minha própria insatisfação comigo mesma, encarei a crise como um problema de carreira profissional e de romance. Transformei um momento de revolução em processo de reacomodação.
Criada numa família de classe remediada, via o esforço dos meus pais para manter as quatro filhas nos melhores colégios, sendo dispensadas outras mordomias. O tempo que os dois dedicavam a nós era muito escasso, embuídos das missões cotidianas da manutenção de uma família tão grande. Os abraços e beijos e conversas deixados para quando desse tempo... Cresci pensando que a coisa mais importante do mundo era me (trans/de/com)formar em alguma coisa. E tome-lhe Engenharia!
Daí a redução da crise à questão egóica da escolha da profissão. Bastou passar no vestibular de Jornalismo para tudo estar resolvido. Muitos meses antes da prova, isto já estava bem claro:
"A provisoriedade reinará até o resultado do vestibular."
Mesmo sendo alertada pela consciência de que estava desperdiçando o momento, eu não consegui mudar meu rumo em outros sentidos. Eu havia me escondido.
"Lembra da estória das ante-salas do futuro? Pois é, descobri que não me encontro numa ante-sala do futuro! Me encontro numa sala contígua, que encontrei tateando as paredes laterais. Era óbvio, mas eu não queria enxergar que não era o fluxo que se tornava translúcido e lento. O destino continuava seu inexorável movimento, porém eu me achava numa posição mais confortável: uma das quinas de uma sala de espera da ante-sala do futuro, onde se verifica a menor velocidade do fluxo."
Textos e imagens recorrentes sobre ante-salas e portas acompanham todo o ano de 1992. Enquanto isso, um namorado fora do Brasil estava para chegar. No começo de 1993, mudança de rumo na carreira garantido, eu me achava o máximo! Grande mentira! Não tive de enfrentar a família para jogar quase 4 anos de curso de Engenharia no lixo. Não tive de sair de casa para trabalhar e pagar cursinho, aliás, nem cursinho fiz. (Odeio cursinhos!!! Eu gosto é de Cursos, de Aulas, de Livros!) Grande merda!!!
***
Onze anos depois, cá estou eu, de novo numa ante-sala do futuro, porém vivendo-a intensamente! Estou no presente. Sentido a massagem gostosa que faz esse tal de fluxo do destino quando tenta me empurrar. Translúcido como nunca! Portas tantas se abrem diante de mim que o movimento do tempo, dos fatos, das gentes é deliciosamente leve e macio, acarinham-me.
Sinto-me hoje como Bastian Baltasar Bux - Salvador de Fantasia e de Si-mesmo na História Sem Fim - diante do Templo das Mil Portas.
Para se deslocar no Reino de Fantasia, bastava desejar um novo lugar e abrir qualquer porta no momento certo. Voilà, estás em outro lugar!!! Graograman explica a Bastian como funcionam as portas do labirinto que deverá enfrentar:
- O senhor só poderá descobrir os caminhos de Fantasia, disse Graograman, através dos seus desejos. E só poderá fazê-lo indo de um desejo para o outro. Aquilo que o senhor não deseja, não conseguirá atingir. É esse o significado das palavras "perto" e "longe" neste lugar. E também não basta querer ir embora de um lugar. É preciso que se queira ir para outro. Deixe que os seus desejos o conduzam.
Mas o que é desejar? Bastian se pergunta:
- É estranho que não possamos desejar aquilo que queremos. De onde virão os desejos? E o que será realmente um desejo?
Ao longo da história, descobrimos que os desejos vêm da Verdadeira Vontade, da vontade de amar. Portanto, apenas desejos da alma podem traçar o caminho para o encontro com o Amor, a fonte das Águas da Vida.
O Reino de Fantasia é uma fabulosa metáfora de nossas vidas, lugar mágico onde todas as portas, todos os caminhos podem nos levar em direção à realização dos nossos desejos mais profundos. Mas, para que isso aconteça é preciso desejarmos verdadeira, integral e intensamente a mudança, mantendo em foco a meta do Amor.
Quando Bastian desperdiça seus desejos em prol do enrijecimento do ego, esquece-se da Criança que é, dos amigos verdadeiros, do rumo a seguir, do caminho de casa. O caminho que leva ao Amor é percorrido por nós mesmos, para dentro e para fora de nós. O equipamento necessário são a alma e a memória, os talentos, sentidos e sentimentos, a intuição e a comunicação. O equipamento é eu, é Eva inteira aqui. Como ensinou meu Mestre Mago Urian, Integridade é o signo da Imperatriz Criança que há de me proteger e impulsionar no caminho a ser traçado de desejo em desejo.
Atenção!!! Graograman adverte:
- Só um verdadeiro desejo pode guiar aquele que estiver no labirinto das mil portas. Quem não o tiver, tem de vaguear a esmo até saber o que deseja. E isso, por vezes, demora muito tempo.
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Agora percebo também eu...
A Imperatriz Criança estava muito doente porque o reino de Fantasia caíra na descrença dos seres humanos. Para curá-la, era preciso que pelo menos uma criança voltasse a acreditar em Fantasia e fosse capaz de dar novo nome à menina enferma. Bastian Baltasar Bux é um garoto que a Imperatriz encontra e seduz através da História Sem Fim contada num livro mágico - aliás, como todos os livros o são!
O menino salva Fantasia, quando chama a Imperatriz de Filha da Lua. A partir daí, ganha a missão de reconstruir todo o Reino a partir de um grão de areia brilhante e de seus desejos. Para a sua proteção, Bastian ganha uma jóia com duas cobras, uma branca e uma preta, cada uma engolindo o rabo da outra. No verso estava escrito: "Faça o que quiser".
Tudo era escuridão. Então, ele cria Perelim, a Floresta Noturna, composta por arbustos e árvores gigantes, de flores fosforescentes e frutos incríveis e deliciosos. Mas era sempre noite. E Bastian dorme.
Ao acordar, é dia e Perelim se transformou num deserto infinitamente coberto de cores, onde morava Graograman.
(Contei a história de Graograman em post anterior. Por favor, reportem-se a ele para entender o que vem a seguir...)
Bastian passa uma noite no palácio de Goab, vê o leão morrer e nascer. Graograman, que passara toda a sua vida entre nascer e morrer, pergunta ao seu criador porque tem que morrer quando a noite cai. Ao que Bastian responde:
- Para que Perelim, a Floresta Noturna, possa brotar do Deserto das Cores, disse Bastian.
Graograman não faz idéia do que significa isso. Bastian descreve a beleza de Perelim e conclui:
- E tudo isso só pode acontecer enquanto você está transformado em pedra. Mas Perelim devoraria tudo e se asfixiaria a si mesma se você não morresse e se desfizesse em pó todos os dias quando você acorda. Perelim e você, Graograman, são dois aspectos do mesmo todo.
Graograman reflete um pouco e diz, feliz:
- Senhor! Vejo agora que minha morte origina a vida e minha vida a morte, e ambas as coisas estão certas. Agora percebo o sentido da minha existência. Agradeço-lhe.
***
Vivia eu trancada no escritório, morrendo sem sol todos os dias, sem dar vida a nada.
Por isso, estou voltando para o mundo.
Enfim, voltarei a respirar!
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