27.10.03
Entre santos e deusas...
Por que comemoramos o nascimento de Cristo sempre no dia 25 de dezembro, mas a data de sua morte é mutante?
Por que a data da Paixão de Cristo é fixada pelos movimentos do Sol e da Lua?
Não faz sentido. Assim como não consigo entender o senta-levanta-ajoelha da Missa Católica, que assisto só pelo sermão. Me recuso a decorar as falas e a seguir os movimentos. Aborreço-me com o Pai Nosso cantado num ritmo que não conheço e com as coreografias que concedem às músicas uma falsa descontração.
Bem, mas a chateação e a resistência ao ritual talvez se deva também aos 9 anos em colégio de padres, onde tudo era dogma e nunca era o momento certo de abrir a boca.
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Sim, mas estamos aqui para falar de Carnaval. Para que a relação ovo-galinha das datas de Carnaval e Semana Santa não lhes deixem em situação constrangedora da próxima vez que alguém perguntar como se calcula o Carnaval, vamos tentar explicar como a data muda todos os anos.
A primeira informação para este cálculo são os equinócios, ou seja, as datas em que dia e noite têm a mesma duração e que marcam o início do outono e da primavera. Aqui na terrinha, esse negócio de 4 estações é lenda! Só tem duas: uma em que chove muito e outra em que chove pouco.
Os equinócios ocorrem nos dias 21 de março e 23 de setembro. Para saber quando é o Carnaval, é claro que interessa a primeira. Depois disso, precisamos saber quando é a primeira Lua Cheia após o equinócio. E, finalmente, o primeiro domingo após a Lua Cheia. Este é o dia da Páscoa. Descontada a Semana Santa, basta contar 40 dias, a Quaresma, para saber quando é a Quarta-feira de Cinzas.
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Nós que fazemos a Alcatéia estamos nos preparando para um Carnaval maravilhoso entre o Recife e Olinda em 2004. Pretendemos nos proporcionar oficinas de danças de deusas, a fim de (nos) encontrarmos (n)as deusas cujas características arquetípicas têm mais a ver com cada uma de nós.
Por enquanto, creio que estou muito para Palas Atena, depois de sair durante alguns anos de Ártemis. Um quadro de Klimt apresentado a mim pela Lobárabe Layla serve de inspiração. Vejam que olhar, que beleza!
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20.10.03
A História sem Fim
A História sem Fim, de Michael Ende (Ed. Martins Fontes) não é simplesmente um livro de historinhas. É uma linda metáfora das nossas vidas. Para quem viu o filme, a história do reino de Fantasia termina quando a imperatriz Criança encontra Bastian Baltasar Bux, o menino que lhe deu um novo nome, veio do mundo dos homens e tem nas mãos o grão de areia fundador, a semente de um novo reino.
Devastado pelo Nada, Fantasia era só escuridão. A imaginação e o desejo de Bastian seriam o fundamento da sua (re)criação. Daquele grão de areia, Bastian faria surgir Perelim, a Floresta Noturna, repleta de plantas gigantes fosforescentes de cores e formas originais e excitantes. Mas, era sempre noite ali e Bastian desejou ver o dia. As flores se desfizeram em dunas de areia de tantas cores quantas existiam em Perelim. Era Goab, o Deserto das Cores.
Andando por entre as dunas, Bastian encontrou um imenso leão, cujo pelo mudava de cor dependendo das cores que o cercavam. Era Graograman. Levado para a toca do leão, Bastian se alimentou e se banhou com fogo. Ao tentar dormir, ouviu um rugido tão alto que não resistiu à curiosidade e saiu do seu quarto. Petrificado em negro sobre o granito da mesma cor, estava Graograman. Bastian chorou pensando que seu amigo tinha morrido durante o sono e deitou-se entre suas patas. Adormeceu assim.
Na manhã seguinte, um rugido o acordou. O leão ficou surpreso ao encontrar Bastian ali. O garoto lhe disse que havia chorado porque pensava que sua morte era para sempre. Ao que ouviu como resposta:
- Cada vez é para sempre!
E explicou sua natureza a Bastian:
- Meu reino é o deserto... e o deserto é também minha obra. Para onde quer que me volte, tudo o que está ao meu redor se transforma em deserto. Trago o deserto comigo. Sou feito de fogo mortífero. Como poderia ter outro destino que não fosse uma perpétua solidão?
Bastian só se encontra a salvo junto ao fogo de morte porque leva no peito AURIN, a Jóia, o símbolo da imperatriz Criança, a Filha da Lua.
Reconhecer uma coisa dessas é algo que cada um de nós precisa fazer. Cada personagem de Fantasia é um aspecto de nós, como cada figura dos mitos constitui um elemento de nossa psique. Encontrar um Graograman num mergulho interior deve ser concomitantemente assustador e belo...
Em seu isolamento, a Morte Multicor, outro nome deste ser de Fantasia, não vê outra coisa ao seu redor que não seja o deserto que o cerca por fora e também o preenche. Sabendo que Bastian vinha de outros mundo, o leão lhe pergunta:
- Por que tenho que morrer quando a noite cai?
Bastian lhe diz:
- Para que Perelim, a Floresta Noturna, possa brotar do Deserto das Cores.
Bastian explica que enquanto Graograman morre, seu fogo não arde, tornando possível o (re)nascimento diário da Floresta Noturna. E acrescenta:
- Perelim devoraria tudo e se asfixiaria a si mesma se não morresse e se desfizesse em pó todos os dias quando você acorda. Perelim e você, Graograman, são dois aspectos do mesmo todo.
O leão diz, então:
- Senhor! Vejo agora que minha morte origina a vida e minha vida a morte, e ambas as coisas estão certas. Agora percebo o sentido da minha existência. Agradeço-lhe.
Todos os textos, conversas, imagens, ações, tudo o que atinge nossos sentidos, sentimentos, pensamentos e intuição vêm colaborando para uma compreensão cada vez mais profunda e sem volta de nós mesmos e do mundo que nos acolhe e repele.
A história de Graograman vem ilustrar com perfeição o que Clarissa Estés fala sobre os ciclos da vida-morte-vida. A autora de Mulheres que correm... descreve o amor como algo muito semelhante ao ciclo diário da Morte Multicor:
"Às vezes, aquele que está fugindo da natureza da vida-morte-vida insiste em pensar que o amor é apenas uma dádiva. No entanto, o amor em sua plenitude é uma série de mortes e renascimentos. Deixamos uma fase, um aspecto do amor, e entramos em outra. A paixão morre e volta. A dor é espantada para longe e vem à tona mais adiante. Amar significa abraçar e ao mesmo tempo suportar inúmeros finais e inúmeros recomeços - todos no mesmo relacionamento." (p. 205)
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Entre Deus e Drummond, eu mesma!
Quando estamos sintonizadas com o mundo, querendo verdadeiramente que algo aconteça, querendo aprender sobre a vida, o mundo e as pessoas, querendo se entender profundamente, tudo parece fazer sentido.
Vocês vão dizer que estou parafraseando Paulo Coelho, mas quem inventou a sincronicidade não foi ele, nem na teoria nem na prática. Jung discorre longamente sobre as relações entre idéias inconscientes e fatos físicos sem ligação material de causa e efeito, como também sobre o relativismo do tempo-espaço na mente inconsciente individual e coletiva.
Quando começamos a ler "Mulheres que correm com os lobos", o que ocorre não é simplesmente o mergulho sectário em um livro. Ocorre uma mudança na forma de ver, sentir, tocar, cheirar, degustar, gozar e amar o mundo. A intuição se aguça, fazendo com que percebamos o que sempre esteve ali.
Andamos cegas, surdas, apáticas e, o que talvez seja o mais grave, mudas. Ao aguçarmos os sentidos, percebemos o sapato apertar, o sutiã roçar, a vagina arder. Sentimos que não dá pra abrir mão do que somos, do prazer, do que alimenta nossas almas. O bolso pode estar vazio, mas sempre é possível conseguir algum para as tintas, as linhas, o batom ou para comer um Diamante Negro por semana...
E sempre dá pra rirmos de nós mesmas! Faço direto isso! Gargalho de minhas pequenas e grandes gafes, das cantadas ouvidas na rua, dos quilos que me deixaram entre dois números de manequim e nenhuma roupa é mais uma luva, de andar com minhas flores preferidas em propícios cabelos emaranhados.
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Ah! Os jasmins! Eles decoram as ladeiras de Olinda, em tons que vão do branco ao púrpura. Chamam-se também entrada de baile formam guirlandas nas janelas, saltam sobre os muros, acariciam nossos rostos com um perfume doce e profundo...
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Ridículo. Quem não o é? Alguns mais, outros menos, todo mundo já se viu em situações que começam constrangedoras, mas terminam numa boa gargalhada. Estou falando dos normais, dos que têm algum senso de humor... Este é o meu público: gente que entende uma piada e que entende quando o outro esquece o final, dando risadas juntos.
Uma coisa muito ética que meus pais pregam com relação ao riso é que uma brincadeira só é engraçada, divertida e saudável quando todo mundo ri. Se há alguma vítima, alguém que sai ferido, magoado ou triste, não teve graça nenhuma! É uma espécie de sadismo.
Li um autor que considera o riso como manifestação de riqueza existencial. José Manoel Silva escreveu que o riso "sempre teve por missão roubar o homem ao horizonte mesquinho da sobrevivência e investi-lo na posição de senhor" e usa Nietzsche para defender a tese de que "temos de rir de nós próprios, antes que sejamos ridos".
Providenciemos a gargalhada, então!!! Hahahahahahahaha!!! E ganhemos massagem facial grátis!!! O riso mexe com tudo. Provoca a beleza por dentro e por fora!!!
Olha a sincronicidade aí, gente: todo mundo começa a falar a mesma coisa de jeitos diferentes, a contar histórias exemplares que nos ajudam a entender as nossas, a indicar bibliografias dialogantes. Peças para o quebra-nossas-cabeças.
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Um exemplo do percurso do meu pensamento em meio a fatos que ocorreram a fim de me fazer chegar a um insight sobre os próximos caminhos é o seguinte:
Meu amigo Mormaço, que mora no extremo tórrido de Roraima criou um grupo de discussão sobre teatro para se manter informado não apenas sobre os espetáculos, mas sobre nossas impressões. Sua primeira mensagem ao grupo foi sobre "O Pregoeiro", peça de Márcio Libar, que ele indicava como preciosa. Ignorei na hora. Ela não chegaria aos palcos recifenses...
Dias depois, estou de bobeira vendo o divertido Gema Brasil (TVE Rio, TVU Recife, no resto do Brasil, não sei... dêem uma olhada no Google, ok?), quando entra um rasta entroncadinho, invocado e lindo. Ele se dizia palhaço e explicava vários projetos: o Teatro do Anônimo, o Mundo ao Contrário e a vida do Mendigo Feliz. Este último é que é demais! É a teoria da abundância de Gabi tornada risível!
A teoria da abundância de Gabi destrói a ambição consumista e dá vontade de pôr as mãos na massa. Quando você sabe o que quer fazer da vida, deve usar o que tem à mão. Se você só tem uma roupa para passear, mas tem três vestidos para apresentar seu show, isto é abundância! Se você não tem sapatos, mas tem tecido para montar um trapézio, isto é abundância! Se você não tem comida, mas faz reiki, no te preocupes, isto é abundância!
Um convite a sair da inércia!
Libar diz que se você só tem arroz para comer e alguém estranha que teu prato só tenha arroz, você sorri e diz: estou fazendo a dieta do arroz! O mendigo triste, inconformado resmungaria, praguejaria e não sairia da inércia, quiçá nem da fome!...
Mas o Libar era muito parecido com um poeta amigo que não se conforma quando ouve minha frase feita: Eu poderia ser uma grande atriz, se não fosse indirigível! Ele responde que posso escrever meus próprios textos e representá-los como bem entender e me convida pros recitais que promove no Alto José do Pinho.
Pois não é que encontrei com Jailson, este amigo, naquele mesmo dia? Falei tudo de uma vez: o que tinha ouvido, sentido e concluído. "Eu descobri porque estou aqui. Eu sou palhaça! Deus me disse, agora lembro claramente: Vai, Eva, ser clown na vida!"
Peraí, agora fiquei em dúvida... Foi Deus ou Drummond?
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Fazer os outros rirem é delicioso, mas rir de si mesmo é se ver de um outro ângulo, de cabeça pra baixo, com outro colorido, usando máscaras outras que não as cotidianas, máscaras que nos mostram ao invés de esconder. Como acontece com o mundo inteiro no Carnaval.
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Caravana das Ilusões ou
Lilith se deixa vislumbrar
As Lobas recifenses foram convidadas para ver uma peça lindíssima: Caravana das Ilusões. Quatro atores mambembes se vêem diante de pelo menos dois caminhos a seguir. Nunca antes tinham podido escolher por onde seguir. A caravana era formada por três irmãos - Bela, Bufo e o Lorde - e um músico mudo. Morto o pai, suas vidas estavam em suas próprias mãos. O que fazer agora? Eles só sabiam ser guiados. Guiar era muito mais difícil. Ao final, a infinidade de caminhos reduziu-se a dois: o da arte e o da glória. Este era o enredo.
Sentamo-nos em roda, cada qual do seu jeito, em almofadas, bancos, cadeiras. Cheiros e gostos nos afetavam. Imagens muitas. Entendimentos múltiplos.
Em meio ao impasse.
Para onde vamos?
Surge ela, a cigana, a que chega sem ser convidada, a de ventre seco, a imprestável, a banida. Exige que lhe dêem de comer e de beber. E todos obedecem. Temem-na.
Traz consigo informações do mundo desconhecido para os artistas, onde, segundo ela, não existem mais artistas. Que tristeza! Que será dos sonhos? Que será da vida?
Traz consigo desequilíbrio para o seio da trupe. Provoca o exílio voluntário do Lorde. Os outros hão de se acomodar. Por medo, não irão para a frente. Nem para trás, por já conhecerem aquele caminho.
Entre as duas mulheres, o contraponto. Enquanto o figurino dos personagens masculinos era em tons de bege marrom cinza, o das duas mulheres se opunha em azul e vermelho, como em tantas referências na nossa cultura popular. O maniqueísmo assim se expressa.
Mas o que me chamou a atenção foi o fato de a cigana girar as saias vermelhas perfumadas docemente e deixar-se ver como fera que é. Suas pernas eram cobertas por uma calça cheia de grossos fios negros. A natureza selvagem, o animal interior, o lado indomado e, no mais das vezes, desconhecido, à nossa vista.
Será que ela conseguia enxergar esse animal?
Será que conseguia se ver plenamente?
Lendo O Livro de Lilith, de Bárbara Black Koltuv, encontrei a passagem que me inspirou este insight:
"Quando Lilith, sob a máscara da rainha de Sabá, tentou seduzi-lo, Salomão, conhecedor das peculiaridades do instintivo natural e feminino ordenou aos djins que construíssem uma sala do trono com um soalho de vidro. Quando a rainha de Sabá (Lilith) viu o rei, pensou, em seu íntimo, que o trono estava sobre a água e ela então ergueu suas roupas para atravessar a água e aproximar-se dele. Desse modo, suas pernas peludas, revelando sua origem bestial e natural, ficaram à mostra. [...]"
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5.10.03
Inteiras metades
Blogs de outras Lobas têm publicado Oswaldo Montenegro. Tanto Layla (http://correndocomlobos.weblogger.terra.com.br), quanto Lakota (http://www.correndocomlobos.blogger.com.br) publicaram a letra de Metade. Sincronicidade! Cada informação parece que vem para complementar a anterior, para fazer pensar sobre o momento vivido, para construir e selar laços.
No texto da música, que é muito lindo, tem uns versos que parecem escritos para a nossa Alcatéia. Para esse momento de (re)encontro e oferenda às meninas que fomos.
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
A outra metade, nós a pressentimos, sim. De vez em quando, ela nos olha de lá, do outro lado do espelho: Lilith, nossa sombra, a Lua negra. É graças a esse vislumbre que podemos dar vazão ao nosso poder de sedução, podemos empurrar o peso de Adão de sobre nossos corpos e sentar em cima dele, podemos optar por colocar a mochila nas costas e não morrer num relacionamento que nos oprime. Podemos ser livres, criativas, vivas!!!
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2.10.03
Registro fotográfico - encontro 11
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