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30.9.03
As meninas dos olhos
Quem fomos nós? Com que nomes nascemos? Para sermos o quê fomos criadas?
Um dia, há mais de 20 anos, fomos menininhas que inspiraram os pais, trazendo-lhes de volta a possibilidade de verem velhos sonhos realizados. Meninas que ouviam nomes delicados cheios de inhas, que ouviam broncas, que tinham horas para comer antes que a barriga roncasse, para tomar banho antes que a pele grudasse, para escrever sem inspiração... Boazinhas ou rebeldes, soltas ou presas em casa, de pés no chão ou bem calçadinhas... Só cada uma de nós sabe o que foi ser criança. Como era gostoso e difícil, tranqüilo e instável, autônomo e dependente, tudo ao mesmo tempo.
A tarefa criada pelas Lobas Rosana e Bethania para a sétima tarefa do terceiro capítulo - Perguntar sobre os mistérios - pretende refazer o caminho que nos leva ao começo de nossas vidas, ao momento em que conquistamos o tüz, o fogo-da-alma que devemos empregar em todos os gestos, palavras, artes, sentimentos.
Olhar para aquela menininha, ver aquele sorriso tímido, constrangido ou despreocupado, pensar naquele cenário, nas roupinhas, no fotógrafo e mergulhar fundo nas meninas dos seus olhos. Isso é um dos encontros mais poderosos pelos quais podemos passar. Um encontro com nosso destino, com as ferramentas trazidas do útero para encararmos a vida, com a natureza intuitiva vibrante, v i b r a n d o.
Engraçado é que Clarissa Pinkola Estés só fala dessa menina no capítulo 6, o do Patinho Feio. E relaciona, como fizemos, os nomes às crianças que f/somos. Clarissa diz: "É melhor que nos demos nomes que nos desafiem a crescer como criaturas livres. Isso é vicejar. É isso que nos foi destinado". Pensamos nos nomes que carregamos nos documentos e nos que nos demos ou deram ao longo da vida, falamos sobre quais se parecem conosco e quais já foram ultrapassados.
Clarissa define ritual (ou rito) como "um dos meios pelos quais os seres humanos colocam suas vidas em perspectiva, quer se trate do Purim, do Advento, quer se trate de puxar a lua para baixo. Os rituais reúnem as sombras e espectros das vidas das pessoas, como que os organizam e os fazem repousar". Fala do rito das ofrendas, "que são altares para aqueles que passam desta vida, [...] tributos memoriais ou expressões da mais profunda consideração pelos entes amados não mais presentes neste plano". Depois disso, nos propõe claramente uma tarefa: "Descobri ser útil para muitas mulheres o ato de fazer uma ofrenda à criança que elas um dia foram, à guisa de reconhecimento do heroísmo da criança".
Falta-nos montar altares àquelas meninas, mas Clarissa ensina a fazê-lo:
"Algumas mulheres escolhem objetos, escritos, roupas, brinquedos, recordações de acontecimentos e outros símbolos da infância que serão incluídos. Elas arrumam a ofrenda ao seu próprio modo, contam a história que acompanha ou não e depois deixam aquilo arrumado enquanto quiserem. É a comprovação de seu passado de dificuldades, de garra e de triunfo sobre a adversidade".
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24.9.03
Horas de Sol, horas de Lua
Presa no escritório durante todas as horas de sol, me pergunto de hora em hora o por quê de estar aqui...
Internet, telefone, telepatia, tudo isso poderia ser usado para que eu pudesse acordar, comer, sair, beijar, dormir... na hora que me aprouvesse.
Meu filho ganhou um relógio e ficou encantado com o tempo. Tempo contado matematicamente. Tempo inventado para nos controlar. Agora, ele acorda às seis da manhã e deixa a soneca ativada. De dez em dez minutos ele - e eu! - acordamos. Uma loucura!
O Calendário da Paz, inspirado em um dos 17 calendários maias, respeita os ciclos do Sol e da Lua. Com seu ano de 13 Luas (quatro semanas) e um dia fora do tempo, os ciclos da fertilidade são respeitados. Que delícia observar se estamos no começo ou no fim do mês através do tamanho da Lua e dos seios. Sentir o tempo na natureza e no corpo. Sentir o dia passar através da fome e da saciedade, da luz e da sombra, do calor e do frio, do despertar e do sonho...
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Preâmbulo às Instruções para dar corda no relógio
Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você - eles não sabem, o terrível é que eles não sabem - dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.
Julio Cortazar
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Música, alimento d'alma
Quando eu era adolescente, eu e minha irmã tínhamos que avisar, aliás, pedir para sair uma semana antes. Quando meu pai proibia a saída, mesmo sabendo para onde, com quem, até que horas, eu chorava. Não sabia fazer mais nada além disso.
Raul Seixas era nosso ídolo, então. Uma fita de 90 minutos com uma seleção fantástica não parava de tocar enquanto gritávamos: "sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade".
Um dia, percebi que a chantagem poderia ser enriquecida pela música. E cantei Sapato 36 para meu pai.
"Eu calço é 37
Meu pai me dá 36
Dói, mas no dia seguinte
Aperto meu pé outra vez
Pai, eu já to crescidinho
Pague pra ver, que eu aposto
Vou escolher meu sapato
E andar do jeito que eu gosto
Por que cargas d'água você acha que
Tem o direito
De afogar tudo aquilo que eu
Sinto em meu peito
Você só vai ter o respeito que quer
Na realidade
No dia em que você souber respeitar
A minha vontade
Pai, já tô indo embora
Já escolhi meu sapato
Que não vai mais me apertar"
Foi antológico! Não lembro se consegui permissão para sair, mas aquilo lavou minha alma!
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O que é numinoso?
A leitura de Mulheres que correm com os lobos incita nosso desejo de aprender mais sobre a teoria de Jung, entender a estrutura psíquica segundo seus conceitos, estudar mais sobre arquétipos, símbolos, mitos, etc. A maioria dos termos esbarra na limitação dos dicionários da língua portuguesa. Uma palavra que demoramos para compreender é numinoso. Encontramos sua definição no delicioso livro das Edições Paulinas A prostituta sagrada : a face eterna do feminino, escrito por Nancy Qualls-Corbett. Ela diz assim:
"Quando o arquétipo irrompe no inconsciente, um efeito numinoso característico é experimentado. Trata-se de misto de reverência, apreensão e admiração maior do que a vida e, escreve Jung, 'pode-se dizer que a longo prazo ele molde os destinos dos indivíduos através de influência inconsciente sobre seu pensamento, sentimento e comportamento, ainda que essa influência só venha a ser reconhecida muito tempo mais tarde'."
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17.9.03
Décimo primeiro encontro
13 de setembro de 2003.
Noite de Lua Cheia.
Toca de Bethânia, Boa Viagem, Recife.
Matilha: Rita, Kitty, Rosana, Gabi, Claudia, Bethânia e Eva.
Rosana ficou encarregada de conduzir a realização da sétima tarefa do capítulo 3 e pediu que levássemos uma foto de quando éramos pequeninas, de quando ainda carregávamos mui viva e atuante a Mulher Selvagem dentro de nós. Começamos a chegar lá às 4 da tarde. A faxina ainda em andamento. A salada ainda incompleta. A sala ainda repleta de móveis. Num instantinho, tudo se ajeitou.
Tomamos café com bolachinhas, queijo e patê. Conversamos horas.
Chegamos todas.
Bethânia deu início à prática. A Loba da fala (a)mansa(dora) tem trabalhado para se tornar grande conhecedora de danças circulares. Ela nos levou a dançar a dança de Kos. Braços trançados, dávamos dois passos para a frente (eu me apresento!) dois para trás (eu reconheço o grupo) e dois para o lado (eu sigo o meu caminho!).
A seguir, contamos as histórias dos nossos nomes e os cantamos os que mais nos agradam. Discutimos a importância do nome como mantra que nos com/in/de/forma. Cantamos todos os nomes criando uma espontânea, um jazz alucinado.
Enfim, colocamos nossas fotos na roda e falamos sobre aquelas menininhas e o cenário que as envolvia. Quanta coisa veio à tona! Memórias despertadas entre risos e lágrimas. Aquelas menininhas que nos olhavam de 25, 30 anos atrás podem ser nossas Vasalisas
Foi nosso encontro mais emocionante!
Tomamos vinho para descontrair. Pequena farra que entrou pela madrugada.
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16.9.03
Uma Oração
Recuse-se a cair.
Se não puder se recusar a cair,
recuse-se a ficar no chão.
Se não puder se recusar a ficar no chão,
eleve o coração aos céus
e, como um mendigo faminto,
peça que o encham,
e ele será cheio.
Podem empurrá-lo para baixo.
Podem impedi-lo de se levantar.
Mas ninguém pode impedi-lo
de elevar seu coração
aos céus -
só você.
É no meio da aflição
que tantas coisas ficam claras.
Quem diz que nada de bom
resultou disso
ainda não está escutando.
(por La Loba Clarissa Pinkola Estés)
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CASAMENTO
(ensinamento da Loba Adélia Prado)
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Aniversário de Bjorn
Minha irmã vai além da colaboração na hora de limpar e cozinhar os peixes. Ela ainda ajuda a pescar e a contar histórias de pescador. A mais cabeluda delas é fotografar um peixe inteiro e se aproveitar da ignorância dos que habitam terras tropicais para inventar que bacalhau tem cabeça! Olhem o registro dos cúmplices:
Happy Birthday, Bjorn!!!
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11.9.03
No diário de papel das Lobas, está o registro da Alcatéia:
Primeiro encontro. 26 de março de 2003. Espaço Orion, Centro do Recife. Matilha: Elisa, Val, Rosana, Lise, Marilda, Cláudia e Andréa. Apresentamo-nos umas às outras, contando um pouco das histórias de vida, falamos dos vários papéis desempenhados pela mulher, formatamos os encontros futuros à base de dinâmicas, ritualizações, correntes pela paz, reiki à distância. Comemos juntas. O capítulo introdutório e a questão da intuição foram trazidos à discussão.
Segundo encontro. 2 de abril de 2003. Casa de Rosana, Região Oeste do Recife. Matilha: Rosana, Lise, Marilda, Cláudia e Andréa (a partir de então, este se definiria como o núcleo do grupo). Discutimos o conto do Barba Azul e a análise feita por Clarissa. Concordamos sobre a existência de predadores em nossas vidas, enfatizando os existentes dentro de nós, e sobre como nos permitimos a condição de caça. Concluímos que a intuição, a curiosidade e a coragem feminina são armas contra predadores, porém a mulher continua a ser salva por figuras masculinas, sejam elas irmãos, pai, marido, médico, advogado, padre...
Terceiro encontro. 8 de abril de 2003. Vale da Lua. Matilha: Rosana, Lise, Cláudia, Andréa, Simone e Goretti. Algumas das Lobas estavam doentes, o que reduziu drasticamente o rendimento do encontro e da discussão. Iniciamos a análise do capítulo 3. Começava nossa saga em torno da Vasalisa, em torno da descoberta e do aprendizado acerca da intuição.
Quarto encontro. 15 de abril de 2003. Toca de Lise, Praça dos Milagres, Olinda. Matilha: Rosana, Lise, Cláudia, Andréa, Goretti, Marilda, Eva e Aldra. Este foi um encontro lúdico para as Lobas relaxarem mesmo. Dançamos, bebemos, contamos coisas das vidas. Ouvimos Penso logo sinto, de Itamar Assumpção, e fizemos reiki à distância nele. Eva pensou que teria de enfrentar alguma prova para ser aceita na Alcatéia e trouxe uma garrafa de Periquita a fim de seduzir o grupo. Encontro agradabilíssimo ao ar livre, o mar ao fundo.
Quinto encontro. 9 de maio de 2003. Toca de Lise, Praça dos Milagres, Olinda. Matilha: Lise, Andréa, Goretti, Marilda e Aldra. De volta à Vasalisa, as Lobas leram o início do capítulo 3 e trouxeram de novo à tona a intuição, abordaram a mãe-boa-demais e o ciclo morte-vida-morte. Lise e Andréa levaram suas bonecas para participarem do encontro.
Sexto encontro. 16 de maio de 2003. Lua cheia. Toca de Lise, Praça dos Milagres, Olinda. Matilha: Rosana, Lise, Cláudia, Andréa, Marilda, Eva e Bethânia. Realizamos as três primeiras tarefas do capítulo 3. Dança circular, discussão do texto e oficina de desenho foram soluções encontradas por nós para pensar e agir a partir do texto de Clarissa. Linda reunião! Saímos dela com projetos de bonecas e de nós mesmas debaixo dos braços. (Vou tentar escaneá-las para postar aqui.)
Sétimo encontro. 3 de julho de 2003. Noite de muita chuva. Toca de Bethânia, Boa Viagem, Recife. Matilha: Rita, Kitty, Sula, Bethânia, Andréa e Eva. Depois de quase dois meses sem encontros, a Alcatéia recebe novas participantes. Rememoramos os encontros anteriores e colocamos as novas Lobas a par acerca da nossa forma de conduzir o estudo da natureza selvagem. Combinadas próximas tarefas.
Oitavo encontro. 7 de agosto de 2003. Burburinho, Rua Tomazina, Bairro do Recife. Matilha: Rita, Rosana, Cláudia, Eva, Bethânia e Mariana. Celebração da criação do blog com Bohemias. (Para quem não conhece o lugar, mas viu Deus é brasileiro, o bar fica na rua onde a personagem de Paloma Duarte voa. Neste filme, Pernambuco é mostrado como o pior lugar do mundo para se morar!!!) conversamos sobre nossas vidas, sobre a arte de cada uma marcou alguns gaviões pra caçar depois. Pra variar!
Nono encontro. 12 de agosto de 2003. Toca de Mariana, Casaforte, varanda voltada para um quartel. Matilha: Rita, Rosana, Cláudia, Eva, Bethânia, Kitty, Mariana, Fabrícia e Miriam. Realizamos a sexta tarefa do terceiro capítulo: "Separar isso daquilo". Uma hora depois do encontro, recebíamos a notícia de que Marilda havia sido violentada. Andréa estava ajudando a Lobinha reichiana a se recompor.
Décimo encontro. 25 de agosto de 2003. Toca de Kitty, Madalena, Recife. Maravilhosa varanda voltada para o Rio Capibaribe. Marte nos espreitava. Matilha: Cláudia, Eva, Andréa, Rosana, Rita, Kitty, Gabriela, Mariana e Rejane. Discutimos a questão da violência contra a mulher e como a Vasalisa que cada uma traz no bolso pode nos ajudar a abrir outros olhos nas ruas, mas também como a crença na liberdade pode ter altos custos para cada uma de nós. Realizamos a quarta tarefa, conduzida por Andréa sob a forma do poema coletivo: "Encarar a megera selvagem".
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10.9.03
Lobas do meu Brasil!
Estamos caminhando para uma rede nacional! Adoro essa idéia: a revolução da Alcatéia! (Tem até rima!)
Nosso intuito primevo - não podemos perdê-lo de vista! - é a revolução interior que significa o despertar da natureza intuitiva, dos sentidos e dos sentimentos; acreditar no nosso potencial criativo e pô-lo em prática; reencontrar a capacidade de acreditar no outro para criar a real possibilidade de trabalho em grupo. Um processo lento, complexo e de dentro para fora.
Pois bem, a Loba Vânia, integrante de outras três matilhas no Recife, escreveu pra nós confessando: "Evinha, fiquei emocionada com o trabalho de vocês, cada texto lido me alimentou a alma, pensei quantas mulheres se reencontrando consigo mesmas, com sua alma e natureza selvagem, pois acredito na nossa natureza gregária".
A seguir, citou um trecho de Clarissa que talvez seja a chave para a compreensão de questão anteriormente colocada por Adrianna - minha pareia no trabalho (ver dia 2.9.3): Por que surgem os grupos de discussão?
"Os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm certas características psíquicas em comum: percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e têm grande preocupação para com os seus filhotes, seu parceiro e sua matilha. Têm experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação. Têm uma determinação feroz e extrema coragem."
Creio que a primeira coisa que a Lobinha recém-nascida, a Loba recém-despertada do cantinho das nossas vidas e psiques, quer ver são outras Lobas, para juntas aprenderem a uivar, brincar e amar. A Loba quer ver seu reflexo em olhos brilhantes. A Loba quer se ver!
Vânia acrescentou: "Estou muito feliz com a possibilidade de conhecer todas vocês, sinto que vai ser o início de uma grande amizade. Tenho uma amiga especial no Acre que está tentando abrir um grupo lá e vai adorar participar ao menos via internet de todo esse movimento. E outra que está em Caruaru que já faz o grupo a mais ou menos um ano. Estamos crescendo, e isso me deixa muito feliz. Um grande abraço para todas as lobas, e um especial para você e à loba que pegou meu telefone (Marilda) e oportunizou nossos contatos."
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5.9.03
Pequenas Princesas
No blog de Layla, nossa correspondente de Londrina, - Correndo com os lobos - ela declara sofrer de síndrome de Pequeno Príncipe. Os sintomas são dos mais agradáveis. No presente caso, ela conta que se manifestou assim: "por toda a vida eu quis, como no livro de Saint-Exupèry, viajar pelas estrelas, pegar caronas em meteoros, conhecer novos planetas com habitantes desconhecidos, etc., exatamente como fazia o principezinho de suas histórias".
Como boa pisciana, também sofro desta deliciosa doença que me tira da terra. Então, voltei à leitura das aventuras do principezinho. E me lembrei que nem só de sonho vive o rapazinho. Ele trabalha e muito. É o único responsável pela manutenção da ordem no pequeno planeta. A luta diária contra o crescimento do baobás, que poderiam ameaçar a integridade do planeta, é incorporada ao cotidiano do Pequeno Príncipe como algo tão natural e necessário quanto o cuidado com o próprio corpo. Corpo e meio ambiente integram-se nesse pensamento.
"C'est une question de discipline, me disait plus tard le petit prince. Quand on a terminé sa toilette du matin, il faut faire soigneusement la toilette de la planète. Il faut s'astreindre réguliérement à arracher les baobabs dès qu'on les distingue d'avec les rosiers auxquels ils se rassemblent beaucoup quand ils sont très jeunes. C'est un travail très ennuyeux, mais très facile."
Cuidar do planeta, livrá-lo dos grandes males quando ainda são passiveis de controle, "é um trabalho chato, mas muito fácil"! O cuidado com a nossa saúde e a do planeta é muito mais simples quando profilático.
Presente às Lobas
Nosso amigo Alexandre Queiroz mandou um presente pra Lobas. Ele anda praticando fotografia como terapia e forma de estranhar o mundo à sua volta. Ele mora na fantástica Cidade do Sol, Natal.
Segundo reza a lenda, Antoine de Saint-Exupéry esteve em Natal e arredores num dos primeiros vôos cruzando o Atlântico e ficou impressionado com um baobá que viu no vilarejo de Nísia Floresta. Este teria sido o espécime inspirador dos ameaçadores baobás do planetinha do Pequeno Príncipe.
Tá lindo, Alexandre!
Obrigada!
Auuuuuuuuuuuuuuu...
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2.9.03
Mais Alcatéias
Na semana passada, fizemos contato com mais um grupo de mulheres que estudam suas próprias vidas, a sociedade e a cultura nas quais estão imersas à luz do livro Mulheres que Correm com os Lobos. A psicóloga Vânia Araújo participa de três grupos, com diferentes objetivos, sobre os quais falaremos depois.
Eu comemorava esse encontro, quando uma amiga me chamou a atenção com a pergunta: Por que surgem os grupos de discussão?
Em todo o Brasil, desde o lançamento da obra, grupos se formam espontaneamente. Alguns são constituídos por amigas, outros dirigidos por profissionais que conduzem discussões e vivências. A maioria deles gera momentos de descontração, onde as Lobas comem, bebem, expõem sua arte e suas idéias de peito aberto.
O mito de que os homens se protegem, enquanto as mulheres se traem, ajuda a nos distanciar umas das outras. Segundo essa crença, a desconfiança deve preceder as relações de amizade entre mulheres. Aprendemos que elas podem nos trair a qualquer momento, dar uma rasteira no ambiente de trabalho, destruir a impressão de que o regime deu certo, sair com o marido da melhor amiga como troféu, depois de minar-lhe o relacionamento.
Distantes da fala sábia da Mulher Selvagem, a mulher mais velha que poderia nos ajudar na condução de escolhas, a leitura de Mulheres que Correm... desperta a necessidade de nos ampararmos mutuamente.
Como na dança circular sugerida por Lise (1a. tarefa, cap. 3), tornamo-nos cada vez mais seguras para o próximo passo à medida que confiamos na força da outra. O cerne de nossas discussões e práticas não é a fala individual, mas a interpretação voltada para a compreensão do gênero, das relações familiares, amorosas, de amizade, de trabalho e sociais.
O que nos une talvez seja a sensação de despreparo para enfrentarmos a vida aprendendo a ser e mantendo-nos originais, bem-humoradas, delicadas, criativas, perspicazes, práticas...
Quem tem outras respostas?
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